Moção de pesar pelo falecimento do Dr. Ajax Walter César Silveira – Moção 119/2011


Câmara Municipal de Osasco


MOÇÃO   119/2011

Senhor Presidente,

Senhores Vereadores,

Apresento à Mesa, observadas as formalidades regimentais, MOÇÃO DE PESAR pelo falecimento do DR. AJAX WALTER CÉSAR SILVEIRA, que foi um dos fundadores da Associação Antialcoólica do Estado de São Paulo no ano de 1950, um idealista que sentia a necessidade de oferecer atendimento às vítimas do alcoolismo.


  

JUSTIFICATIVA

A Associação Antialcoólica do Estado de São Paulo iniciou suas atividades no ano de 1942, num salão cedido pela Casa do Pequeno Trabalhador, localizado sob o Viaduto Nove de Julho, na cidade de São Paulo.

A princípio, o objetivo era a recuperação de alcoólatras daquela região, porém, com a grande procura de pessoas interessadas no tratamento, outros núcleos foram se criando e se espalhando pela capital e interior do Estado, contando atualmente com mais de 90 núcleos.

Após intenso trabalho, a oficialização ocorreu em 1º de março de 1950 e a primeira diretoria foi assim composta:

DR. ÁLVARO PLAPÉRIO – Presidente;

*DR. AJAX WALTER C. SILVEIRA – Vice-Presidente;

DR. BENEDITO MENDES REIS – Secretário;

VITOR MODESTO PEDOTTI – Tesoureiro.

O estatuto social foi elaborado pelo advogado Dr. Rui Mendes dos Reis que contou com a colaboração do Dr. Gumercindo Fleury, Dr. Jamis Ferraz Alvim, Dr. Flaminio Favaro e do Dr. Santo Grasso. Curiosamente somente este último fazia uso de bebida alcoólica.

A Associação Antialcoólica do Estado de São Paulo é uma entidade filantrópica sem fins lucrativos e é reconhecida como de utilidade pública. 


AAESP – OSASCO

Em 15 de outubro de 1967, a AAESP chegou à Osasco, pela ação dedicada e decisiva do Pe. Ângelo Grando, então pároco da Igreja Nosso Senhor do Bonfim.

Houve a primeira reunião doutrinária do Núcleo Osasco, que teve grande colaboração daquele sacerdote que foi auxiliado também, por alguns recuperados do Núcleo de Taboão da Serra.

No inicio do ano de 1968, o Núcleo se transferiu para a Igreja Nossa Senhora Aparecida no bairro Jardim Piratininga, onde funcionou até fins de 1969, transferindo-se em seguida para a também Igreja Nossa Senhora Aparecida, no Jardim Helena Maria onde permaneceu até 1970. Em seguida, mudou-se para o salão onde funcionava o Centro Espírita “Obreiros do Bem”, na Av. Maria Campos, no Centro de Osasco onde permaneceu até 1971.

Em 1972, por questões contrárias à vontade dos recuperados, não houve reuniões doutrinárias, as quais reiniciaram somente em 1973, na Igreja Santa Gema Galgani, em Presidente Altino.

Em 1982, um decreto concedeu à AAESP o uso do terreno situado sob o Viaduto Ignês Collino, localizado na Av. Maria Campos, 25 para a construção de um salão onde funcionaria o Núcleo e a Regional em Osasco.

Era presidente do Núcleo Osasco, o Sr. GABRIEL FERREIRA DOS SANTOS.

Hoje, está estabelecida na Rua Nelson Camargo, 393 – Jardim Agú – Osasco e suas reuniões acontecem as quintas-feiras e aos sábados no horário das 20:00 às 22:00.

Entidades como a Associação Antialcoólica do Estado de São Paulo, que trabalha de forma decisiva, na recuperação de pessoas que querem parar de fazer o uso de bebida alcoólica – sem medicamentos e sem internações, apenas com a vontade e a consciência de realmente mudar para melhorar sua vida, recuperando sua dignidade e saúde, merece o reconhecimento da sociedade como um todo e, em especial dos poderes públicos, pelo carinho e determinação em suas ações para com o ser humano.

 


 

DR. AJAX CÉSAR SILVEIRA

* DR. AJAX WALTER CÉSAR SILVEIRA, nasceu em 4 de setembro de 1917, na cidade de São Paulo. Seus pais, Júlio César Silveira e Aurora Santos Silveira formaram uma família composta por mais dois filhos, Mauro César e Aparecida Silveira.

Dr. Ajax formou-se na segunda turma pela Escola Paulista de Medicina e foi desde então, um profissional exemplar. Era do tempo em que o médico era chamado de “médico de família”, pois em suas consultas, ele procurava não tratar apenas o corpo, mas também a alma. Dizia: “o corpo nós tratamos com remédios, mas a alma nós tratamos com fé e bons conselhos”.

O jovem médico estabeleceu desde cedo seus alicerces no campo da medicina, mas também fincou bandeiras no território do alcoolismo e tabagismo, estabelecendo seu ativismo a favor da saúde.

 Atuou como cirurgião na Santa Casa e chefiou equipes de serviços em cirurgias de urgência em pronto-socorros da Prefeitura Municipal de São Paulo. Outro grande marco de sua vida profissional foi a criação do ARA – Ambulatório de Recuperação de Alcoólatras que consistia no tratamento especializado para a recuperação de alcoólatras e fumantes gratuitamente.

Era um orador nato. Convencia tanto as platéias de intelectuais, como as de pessoas simples sobre os efeitos danosos do alcoolismo e do tabagismo. Apresentava sempre nessas ocasiões, uma coleção de peças anatômicas que tornavam visíveis esses efeitos.

Dr. Ajax, embora com seu intenso trabalho como médico, dedicava seu tempo aos que mais necessitavam. Foi um dos fundadores da Associação Antialcoólica do Estado de São Paulo no ano de 1950, por onde passaram e ainda passam milhares de famílias em busca de solução para os problemas destes vícios. Pertenceu a primeira diretoria da AAESP como Vice-Presidente.

Já nessa época, ao ser questionado se o alcoolismo era doença, respondeu: “Sim, não só é um problema grave de saúde, como também é uma doença de evolução progressiva, o mais difícil na recuperação de um alcoólatra é fazê-lo compreender que ele é um dependente do álcool”.

Em 1970, tornou-se internacionalmente conhecido após sua participação em congressos e seminários organizados em Nice, na França. Também criou neste mesmo ano, a Sociedade de Combate ao Fumo.

Em 1972 fundou o Centro de Recuperação de Fumantes, cuja principal atividade era ministrar cursos para que as pessoas deixassem de fumar em apenas cinco dias.

Também teve grande importância para a comunidade médica internacional quando representou o Brasil no III Congresso Mundial sobre o Alcoolismo em Acapulco, no México em 1975.

Este evento foi apoiado pela ONU e enquanto os delegados de outros países mostravam o que poderia se fazer para combater o problema no mundo, Dr. Ajax Walter mostrou o que já era feito no Brasil.

Como reconhecimento por seus trabalhos de intercâmbio com os países envolvidos no congresso recebeu uma comenda de honra ao mérito oferecida pela Organização Internacional de Prevenção do Alcoolismo e Drogas, através da ONU.

Em sua dedicação pessoal, profissional e social pela cidade de São Paulo, ministrou mais de 700 cursos. Foi reconhecido pela Câmara Municipal de São Paulo, recebendo a MEDALHA ANCHIETA a mais alta comenda oferecida a quem já é cidadão paulistano.

Escreveu dois livros: “Drama do Tabagismo” e o “Drama do Alcoolismo”, literatura estas, usadas no combate e alerta contra estes vícios.

Profissional da saúde, através do seu trabalho contribuiu de forma grandiosa para a reabilitação de milhares de dependentes e conseqüentemente, para a reconstrução de inúmeros lares desfeitos por causa do vício.

 Dr. Ajax, dizia que “o alcoolismo e o tabagismo são portas para outras “toxicofiliais” e tendo em vista que as propagandas diretas e indiretas bombardeiam a população em todas as mídias a todo tempo”.

Dr. Ajax era casado com Dona Clorys Naumann Silveira, sua inseparável e dedicada esposa.

 O casal durante mais de 60 anos sempre renovou, dia após dia, seu compromisso conjugal. Dr. Ajax e Dona Clorys foram e serão sempre modelo de convivência familiar para a atual e futuras gerações. Como diz o ditado: “Ao lado de um grande homem sempre existe uma grande mulher”.

Formaram assim, uma família exemplar. Tiveram três filhos, JUÇARA CÉSAR SILVEIRA professora, WALTER CÉSAR SILVEIRA, médico (in memorian) e CYRO CÉSAR SILVEIRA jornalista e radialista.

Da primeira diretoria, a que fundou a Associação Antialcoólica do Estado de São Paulo em 1950, Dr. Ajax era o último, que ainda estava entre nós. Sempre manifestou dedicação, fé, amor e profissionalismo.

Partiu serenamente, em 18 de novembro de 2011, deixando um vasto legado. Mostrou que o maior exemplo que se pode dar é o trabalho realizado com amor às causas em que se acredita.

Sala de Sessões Tiradentes, 29 de novembro de 2011.

BOGNAR
-vereador-


 

Último artigo escrito em outubro de 2006                

 “Alguns países, como Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha, têm lançado advertências em relação ao tabagismo. Sabemos que nos Estados Unidos são proibidas propagandas nos rádios, jornais, televisões, a respeito do fumo. E, além disso, em cada maço de cigarros está estampada uma advertência: “cuidado, este produto é prejudicial à sua saúde”. O General Surgeon do Advisory Committee on Smoking and Health, em 1964, produziu o primeiro relatório, encabeçado, por Luther L. Terry e outros cientistas, por encomenda do Governo dos Estados Unidos, constituindo uma publicação oficial, reconhecendo que o tabaco é a causa do câncer e de outras doenças sérias.

Então, o fumo constituía mesmo um problema de saúde pública e a partir disso o governo americano tomou as medidas necessárias. A propaganda intensa de cigarros foi abolida, o que ainda não ocorreu no Brasil.

Desde 1996, no Brasil, há uma legislação federal que dispõe sobre as restrições ao uso e a propaganda de produtos fumígenos, bebidas alcoólicas, medicamentos e defensivos agrícolas (Lei nº 9294/96 e decreto regulamentar 2018/96).

Os médicos foram os primeiros a sofrer o impacto dos resultados dos estudos sobre o fumo, porque, anteriormente, não se enfatizava o mal que o cigarro causava. O fato marcante foi de que cem mil médicos deixaram de fumar. O grito de alarme dado pelos médicos ingleses, também, contribuiu para isso. A divulgação desses fatos na mídia, inclusive nos veículos de transporte do correio, auxilio muito.

Um fato interessante é a respeito das mulheres. Como elas não fumavam, o câncer de pulmão era raro entre elas. Mas esse tipo de câncer está aumentando, após a Segunda Guerra, de um modo espantoso, porque as mulheres passaram a fumar e a incidência do câncer está se fazendo mais intensa no sexo feminino.

No Brasil, a incidência do câncer de pulmão na mulher é estimada em 10/100.000, enquanto, para os homens, é de 19/100.000.

É interessante que um verdadeiro grito se levantou, aqui no Brasil, a respeito da epidemia de meningite, que fez inúmeras vítimas, ocorrendo à morte em poucos dias.

 No entanto, o fumo tem causado mais mortes do que a meningite e do que outras epidemias. Não obstante, não há um alerta, não se promoveu nenhuma campanha de educação do povo, talvez porque a

morte seja em longo prazo. As doenças e suas conseqüências surgem 20 anos depois que o indivíduo começou a fumar.

É difícil admitir uma situação como está, onde o fumante gaste uma soma considerável quantia em dinheiro, para na realidade, contrair uma doença.

Não será por acaso que ele contrairá um câncer. Pesquisas realizadas pelo governo americano chegaram ao cálculo da quantia de 100 mil dólares para um indivíduo desenvolver o câncer de pulmão, pois é o que vai gastar em 20 anos, fumando de um a dois mações de cigarro por dia.

Acho que o maior fator é o financeiro, o lucro que vem dos impostos que incidem sobre o fumo. Entre nós, ninguém ainda se deteve em fazer um estudo dos prejuízos que esse vício traz.

No Brasil a arrecadação dos impostos sobre o tabaco (IPI=181,7 milhões de reais), não ultrapassa os gastos com as doenças relacionadas ao tabaco, que são da ordem de 500 milhões de reais (SUS).

Como acontece com o alcoolismo, na Espanha, que é um país exportador de vinho, as despesas oneram três vezes mais do que lucro com o que recebem da exportação do vinho. De forma que a única barreira é o interesse financeiro, porque não se conhece a extensão dos prejuízos, as doenças, o trabalho e as despesas que a nação sofre com as doenças trazidas pelo tabagismo.

Uma campanha educativa deve ser levada a efeito em todas as escolas, fazendo parte das grades curriculares, como se iniciou na cidade de São Paulo.

                                                                                DR. AJAX WALTER CÉSAR SILVEIRA